sexta-feira, 6 de março de 2009

O DIA EM QUE TENTARAM MATAR BOB MARLEY - 2ª Parte
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À noite, ingleses tomavam doses duplas de Appleton Special e se mandavam no dia seguinte, no vôo das 7h20min para Miami. Alguns americanos partiam com tamanha pressa que esqueciam no quarto seus gravadores e nem sequer se lembravam de avisar o escritório local da Island Records.

No começo, Bob não se importava em receber os repórteres, pois a maioria das entrevistas importantes era concedida na cidade, em Kingston, e os poucos correspondentes que apareciam demonstravam um interesse genuíno. Falava lentamente, procurando evitar um uso demasiado de gíria e de patois. Peter, que ainda estava disposto a dar entrevistas sobre seu passado, era mais fácil de compreender; era bem-falante, tinha talento de narrador – quando não estava empunhando uma faca, tentando aterrorizar algum correspondente pelo mero prazer que isso lhe dava.

Enquanto todos os jornalistas dos Estados Unidos, Inglaterra e de toda a parte tentavam obter uma entrevista com os membros dos Wailers e entender em que consistia o Deus Jah, ocorria uma grande mudança na ortodoxia rastafariana, tal como aceita no casarão da Hope Road; e, na opinião de muitos observadores, essa mudança era mais uma manifestação da força que Bob Marley havia adquirido e do interesse de outros em permanecer ao lado dessa força, compartilhar dela – ou destruí-la.

Novas doutrinas rastafarianas começavam a ser pregadas no gueto, das quais a mais influente, mística e controversa era a nova seita das Doze Tribos de Israel, que havia sido fundada em Trench Town em 1968 por um homem chamado Vernon Carrington. Originalmente um vendedor de sucos, dono de um carrinho no qual oferecia pé-de-vaca – uma poção medicinal feita do suco de uma planta que tinha esse nome –, Carrington lera apaixonadamente a Bíblia e alegava ter sido abençoado por uma visão. Pedia aos seus seguidores que se preparassem misticamente para a repatriação, quando emigrariam para uma região da Etiópia, no Vale de Goba, chamada Shashermene. O dogma fundamental que deveriam aceitar de antemão proclamava que a raça humana estava dividida em 12 tribos espalhadas pelo mundo, cada uma das quais tinha um nome de um dos filhos de Jacó, que Jah enviara ao Egito.

Ao pregar a sua crença, as Doze Tribos de Israel recorriam a um livro intitulado Hebraísmos da África Ocidental – Do Nilo ao Niger com os Judeus, de autoria de Joseph J. Williams, S.J., publicado em 1930. Estudo profundo e abundantemente documentado de um historiador jesuíta, o livro descreve a proliferação do judaísmo e da cultura judaica através da África. Lançando mão da Bíblia e de outros textos religiosos, além de suas próprias observações, Williams afirma que o judaísmo dominava o Egito, a Etiópia, o Sahara e a África Ocidental, proporcionando uma confirmação erudita da crença (geralmente aceita entre os rastas) de que eles são, de fato, hebreus negros.

Certos líderes dos rastas, como Mortimo Planno (que ajudara Bob Marley a familiarizar-se com a crença dread básica), reprovavam as Doze Tribos. Mortimo achava que o novo grupo representava um afastamento das tradições democráticas do rastafarianismo.

Para piorar as coisas aos olhos de outros rastas, as Doze Tribos vinham fazendo coleta de dinheiro, pedia-se aos crentes que doassem vinte centavos de dólar por semana, destinados a um fundo de repatriação.

O álbum Rastaman Vibration, de Bob Marley, tinha características notáveis que o distinguiam dos outros. A primeira era relativamente inócua: o tipo de reggae que ele oferecia era mais próximo do rock do que todos os LPs anteriores. Porém, a característica excepcional era a Benção de José, na última capa, anunciando em termos formais, embora crípticos, a admissão de Bob nas Doze Tribos de Israel.

O último elemento extraordinário do álbum tinha a ver com a outra luta pelo poder que estava sendo travada na Casa da Ilha. Uma das trilhas do novo álbum era uma canção lamentosa chamada Johnny Was, que narrava a morte de um pistoleiro.

Todos os dreads e pistoleiros de Kingston reconheceram no Johnny da canção um certo Carlton (Bat Man) Wilson, irmão do cantor Delroy Wilson. Protetor radical da gente do gueto, tinha o hábito de entrar em lugares freqüentados por maus elementos. Com as duas pistolas nas mãos. Rapidamente, desarmava ambos os lados, tomava-lhes as armas, destruía-as e atirava-as à baía de Kingston.

Como a presença de armas carregadas entre os sofredores da Jamaica tinha atingido proporções epidêmicas, Bat Man estava talvez tentando poupar sofrimento aos pobres e livrar os jovens de sentenças compulsórias à prisão perpétua impostas pela posse de armas.

Como virtualmente todos os homens do gueto tinham algum tipo de afiliação política, o bom samaritanismo que Wilson praticava com as duas pistolas aborrecia certas facções que tinham necessidade do poder de fogo que esses homens representavam. Assim, certa noite, resolveram “dar um jeito” em Wilson, o Bat Man.

Ao colocar a canção “Johnny Was” no mesmo álbum em que anunciava sua adesão às Doze Tribos, Bob dava a entender que havia tomado partido. De uma forma ou de outra, Bob estava se definindo.

Os capangas do JLP tinham andado muito ocupados em Tivoli Gardens na época do natal. Um press-release chegou à redação de Gleaner na manhã de terça-feira, 30 de dezembro de 1975: “O líder da oposição, Sr. Edward Seaga, escreveu ao Comissário de Polícia acusando-o de enviar grupos de caça para Tivoli Gardens, que atiraram a esmo como caubóis embriagados, e fizeram explodir bombas de gás lacrimogênio como piratas que desejassem saquear uma cidade”. Chegava o ano das eleições e os pistoleiros antecipavam à campanha. Cenas como a descrita pelo press-release do Gleaner ocorriam em todos os bairros de favelados.

Em Kingston, o ambiente estava quente. A violência indiscriminada que antecedia as eleições era intensa e generalizada.

Ao meio-dia de 19 de junho de 1976, o governador-geral, Florizel Glasspole, declarou estado de emergência, colocando a Jamaica sob a Lei Marcial. Michael Manley declarou que a polícia e as forças de segurança vinham combatendo o que ele acreditava ser agitação premeditada e organizada por Edward Seaga, líder do JLP, provavelmente em conivência com a CIA para desacreditar o atual governo.

Pouco antes da partida dos Wailers na tournée de promoção de Rastaman Vibration, Skilly Cole, que era empregado como treinador de futebol no Estado nacional, vinha mantendo uma amizade suspeita, aos olhos de certos pistoleiros, com Claude Massop, elemento violento do JLP. Mais tarde, Massop convidou Skilly e Bob a ir com eles ao hipódromo de Camayanas, onde Claude gozava de considerável prestígio social, e os dois cometeram um erro de aceitar o convite, embora Bob se recusasse a apostar fosse em que fosse.

Para complicar ainda mais as coisas, certos bandidos de Concret Jungle tinham feito um trato, quando ainda residiam na Casa da Ilha, no sentido de subornar um jóquei que ia correr um Páreo Duplo em Camayanas; o jóquei foi seqüestrado e informado de que devia perder as duas corridas. O jóquei obedeceu para depois fugir para o Canadá, conforme planejado. Os subornadores ganharam uma fortuna sem que ninguém soubesse como.

Infelizmente alguns dos pistoleiros tinham fugido para Miami, deixando de pagar o resto da quadrilha. Sabendo que o trato tinha sido feito no pátio fronteiro da Casa da Ilha, alguns elementos de Concret Jungle fizeram uma visita a Hope Road para exigir que Bob pagasse a divida de seus irmãos foragidos. Bob estava ausente, na tournée, e Skilly estava com ele. Depois da tournée, Marley voltou a Kingston, enquanto Skilly foi em peregrinação a Etiópia na companhia de alguns membros das Doze Tribos. No casarão da Hope Road, os bandidos aguardavam impacientemente a chegada de Bob. (continua)

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